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Dor na ATM (DTM) é da mordida? O que diz a ciência

Por Dra. Cristiane Martins ·

A dor na ATM raramente vem da mordida: o tratamento certo começa pelo mais simples e reversível.

Resposta rápida

Na grande maioria dos casos, não. A ciência atual mostra que a forma como os dentes encaixam — a chamada mordida ou oclusão — não é causa da disfunção temporomandibular (DTM) nem da dor na articulação ou nos músculos da mastigação. Por isso, tratamentos dentários irreversíveis (desgastar dentes, "acertar a mordida" ou grandes reabilitações) feitos só para tratar a dor da ATM não se justificam. O caminho indicado começa pelo que é reversível e conservador.

A mordida "errada" é a culpada pela dor na ATM?

É uma das ideias mais antigas — e mais repetidas — em medicina dentária: a de que uma mordida desalinhada, um dente "alto" ou uma má-oclusão estão na origem das dores na articulação da mandíbula e dos músculos da face. Durante décadas, muitos tratamentos partiram deste pressuposto. No entanto, quando olhamos para a investigação mais recente, o cenário é bem diferente. As revisões e os estudos atuais não encontram uma relação de causa-efeito entre a forma como os dentes encaixam e a disfunção temporomandibular (DTM). Por outras palavras: ter uma mordida "imperfeita" não condena ninguém a sofrer de dor na ATM, e corrigir essa mordida não é, por si só, a forma de tratar ou prevenir essa dor.

Isto não significa que a sua dor não seja real ou importante. Significa apenas que a causa, quase sempre, está noutro lado — e que o tratamento certo começa por compreender essa origem, em vez de mexer de forma irreversível nos dentes.

Então o que causa, afinal, a DTM?

A disfunção temporomandibular não é uma única doença, mas um conjunto de problemas que afetam a articulação da mandíbula, os músculos da mastigação, ou ambos. É bastante comum: estima-se que cerca de três em cada dez adultos e cerca de um em cada dez jovens apresentem algum sinal de disfunção temporomandibular, sendo o deslocamento do disco com redução (aquele "estalido" ao abrir a boca) a forma mais frequente.

Os fatores que hoje associamos à DTM são multifatoriais: tensão e sobrecarga muscular, hábitos de apertar ou ranger os dentes (bruxismo), stress, alterações do sono, sensibilidade aumentada à dor e fatores próprios da articulação. Curiosamente, a investigação mostra muitas vezes o oposto do que se pensava: em vez de a mordida causar a DTM, é a DTM que pode alterar a mordida. Quando um músculo está em espasmo ou a articulação inflamada, a forma como os dentes encaixam pode mudar temporariamente — e não o contrário.

Se tenho uma má-oclusão, preciso de "acertar a mordida"?

Para tratar a DTM, a resposta da ciência atual é clara: não. Mordidas profundas, mordidas cruzadas, classe II, dentes apinhados ou pequenos contactos "a mais" foram durante muito tempo apontados como culpados. Os estudos mais sólidos não confirmam essa ligação — alguns observam até que certas características da mordida não aumentam o risco de DTM. Da mesma forma, fazer ortodontia não causa DTM, e o tratamento ortodôntico não deve ser proposto com a promessa de prevenir ou curar dores na ATM.

Isto é especialmente importante porque há tratamentos dentários que são irreversíveis: desgastar o esmalte para "equilibrar" a mordida, grandes reabilitações ou ajustes oclusais extensos feitos apenas para tratar a DTM. À luz do que hoje sabemos, estes procedimentos não se justificam quando o único objetivo é a dor da ATM. Corrigir uma má-oclusão pode fazer todo o sentido por razões funcionais, estéticas ou de saúde oral — mas não como "tratamento" da DTM.

E a ligação entre mordida, respiração e sono?

Há uma nuance que merece nota e que se cruza com uma área central do meu trabalho: a via aérea. Algumas alterações esqueléticas (por exemplo, certos casos de classe II) podem coexistir com perturbações respiratórias do sono. Nesses casos, tratar a componente respiratória e o crescimento pode aliviar sintomas — mas o cuidado é não atribuir a dor da ATM à mordida e, sim, olhar para a causa de fundo, como a forma de respirar e de dormir. É por isso que uma avaliação que integra a função (respiração, sono, músculos, postura) costuma dizer mais do que olhar apenas para o encaixe dos dentes.

Que tratamentos fazem sentido para a dor na ATM?

A boa notícia é que a abordagem com mais apoio científico é também a mais conservadora e reversível. Para a maioria das DTM, sobretudo as de origem muscular, fazem sentido medidas como educação sobre a dor, gestão do stress e dos hábitos de aperto, exercícios e fisioterapia orofacial e, quando indicado, uma goteira oclusal. A fisioterapia tem-se mostrado tão eficaz como a goteira nas DTM de origem muscular, e a combinação de uma goteira estável com aconselhamento é das estratégias mais úteis para melhorar os sintomas.

Importa ser honesta quanto às goteiras: são reversíveis e não invasivas, o que é uma grande vantagem, mas o mecanismo exato pelo qual ajudam ainda não está totalmente esclarecido e a qualidade da evidência sobre a sua eficácia é modesta. Isso não as torna inúteis — torna-as uma peça de um plano, e não uma solução mágica. O princípio orientador é simples: começar pelo reversível, dar tempo e reservar intervenções complexas para quando existe uma indicação clara que nada tem a ver com "tratar a DTM".

A goteira resolve tudo? E nas crianças?

Nas crianças, a prudência é ainda maior. A DTM existe em idade pediátrica, mas é menos frequente e tende a variar bastante ao longo do tempo, muitas vezes melhorando com a maturação. Por isso, evitam-se tratamentos agressivos ou irreversíveis e privilegia-se a observação, a educação da família e medidas simples. Em muitos casos, o que mais ajuda é compreender o contexto — sono, respiração, hábitos, stress escolar — e atuar aí, em vez de intervir na mordida.

Quando devo procurar ajuda em Oliveira de Azeméis?

Se tem dor na face, na mandíbula ou à frente do ouvido, dificuldade ou ruído ao abrir a boca, dores de cabeça frequentes ou sinais de que aperta os dentes, vale a pena uma avaliação. O objetivo de uma primeira consulta não é "acertar a mordida", mas perceber a origem do problema e propor o caminho menos invasivo possível. Na minha prática em Oliveira de Azeméis, isso passa por uma avaliação cuidada e, quando faz sentido, pela articulação com outras áreas, como a otorrinolaringologia, a terapia miofuncional ou a fisioterapia.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Cada pessoa é única, e só uma observação atenta permite distinguir o que está, de facto, por trás da sua dor — e tratar a causa com segurança, sem passos irreversíveis desnecessários.

Perguntas frequentes

Ter uma mordida torta significa que vou ter dor na ATM? +

Não. A evidência atual não liga a má-oclusão à disfunção temporomandibular. Muitas pessoas com mordidas "imperfeitas" nunca têm dor na ATM, e tê-la não significa que a mordida seja a causa.

Preciso de fazer ortodontia para tratar a dor na mandíbula? +

A ortodontia não deve ser proposta para prevenir ou curar a DTM, porque não há prova de que o faça. Pode fazer sentido por outras razões, mas não como tratamento da dor da ATM.

A goteira cura a DTM? +

A goteira é uma opção reversível e pode ajudar a aliviar sintomas, sobretudo combinada com aconselhamento. Não é uma cura garantida, e a fisioterapia pode ser igualmente eficaz nas DTM musculares.

É seguro desgastar os dentes para equilibrar a mordida? +

Ajustes oclusais irreversíveis feitos apenas para tratar a DTM não são apoiados pela ciência atual. Privilegiam-se sempre medidas reversíveis e conservadoras.

Referências

  1. Thomas DC, Singer SR, Markman S. Temporomandibular Disorders and Dental Occlusion: What Do We Know so Far? Dent Clin North Am. 2023;67(2):299-308. · PMID 36965932 · DOI
  2. Valesan LF, Da-Cas CD, Réus JC, et al. Prevalence of temporomandibular joint disorders: a systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2021;25(2):441-453. · PMID 33409693 · DOI
  3. Mohlin B, Axelsson S, Paulin G, et al. TMD in relation to malocclusion and orthodontic treatment. Angle Orthod. 2007;77(3):542-548. · PMID 17465668 · DOI

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